26 de jun de 2017

O absurdo da vida em "O mito de Sísifo"

Se a vida possui um verdadeiro sentido e se vale a pena ou não ser vivida são questões inerentes à existência humana e, por isso, se apresentam fundamentais à Filosofia. Diversas têm sido as justificativas pelas quais o homem responde a tais perguntas, seja de forma afirmativa ou negativa. De qualquer forma, não há uma resposta única, última, absoluta, de maneira que cada ser humano precisa, em sua existência, questionar-se sobre as mesmas questões, cujas respostas determinarão seu posicionamento frente a sua própria vida.


O mito de Sísifo

Sísifo, um camponês que fundou a cidade de Corinto, é filho de Éolo, o deus do vento, e foi considerado o homem mais astuto de seu tempo. Sísifo despertou a ira de Zeus quando contou ao deus dos rios, Asopo, que Zeus tinha sequestrado a sua filha Egina. Zeus, ao escapar da fúria de Asopo, vingou-se de Sísifo e ordenou que Hades o levasse ao Tártaro, um mundo subterrâneo onde viviam as almas condenadas. Sísifo pediu então a sua esposa, Mérope, que não o enterrasse. Com isso, já no Tártaro, ele persuadiu Perséfone a deixar-lhe voltar à vida para organizar seu sepultamento e se vingar dos negligentes que não o fizeram. Ela o deixou ir por três dias, mas ele quebrou sua promessa, até que Hermes foi indicado a trazê-lo à força novamente.

Sísifo, então, recebeu uma punição exemplar: rolar diariamente uma grande pedra até o cume de uma montanha. Ao chegar ao topo, a pedra rolaria novamente até o chão, condenando-o a começar tudo de novo, infinitamente. 



Transformamos a pedra que Sísifo carrega montanha acima, todos os dias, em nossa rotina de trabalhos repetitivos e sonhos insaciáveis. Quando por fim nos damos conta que nossa existência é absurda, isto é, que uma razão profunda de viver mostra-se inconcebível, então, despertamos. Portanto, o absurdo se refere ao conflito entre a tendência humana de buscar significado inerente à vida e a sua inabilidade para encontrá-lo.

Para Camus (1989), é a beleza que as pessoas encontram na vida que a faz valer a pena. É possível criar um sentido para a vida, que pode não ser um sentido filosoficamente objetivo e universal, mas consiste em algo pelo que lutar. Sísifo, consciente do absurdo, é um ser que vive a vida ao máximo e despreza seu sofrimento. 

Deixo Sísifo na base da montanha! As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que  nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que está tudo bem. Esse universo, doravante sem dono, não lhe parece  estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo.  A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz”. (Camus, 1989)


Referências:

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo: Ensaio sobre o Absurdo. Tradução e apresentação de Mauro Gama, Editora Guanabara, 1989.

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