30 de jun de 2017

A Cidade do Tudo

“Que cidade é essa? Será a Cidade do Tudo? A cidade em que todas as partes se conjugam, as escolhas se contrabalançam, onde se enche o vazio que existe sempre entre o que se espera da vida e aquilo que nos toca?”

Italo Calvino. O castelo dos destinos cruzados. p. 83

28 de jun de 2017

A palavra escrita

"Entre os utensílios do eremita há até um crânio: a palavra escrita tem sempre presente a anulação da pessoa que escreveu ou daquela que lera. A natureza inarticulada engloba em seu discurso todo o discurso humano."

Italo Calvino. O castelo dos destinos cruzados.p. 144.

Os mortos e os vivos

"E chega então o momento em que o coveiro entra em cena e descarrega a sua tirada: — Para afastar o pensamento da morte os cidadãos escondem os cadáveres aqui embaixo, de qualquer maneira. Mas depois, por mais que o afastem, acabam pensando melhor e voltam aqui para verificar se os mortos estão bem sepultos, se pelo fato de serem mortos são alguma coisa diferente dos vivos, pois de outra forma os vivos não estariam tão seguros de serem vivos, digo bem?"

Italo Calvino. O castelo dos destinos cruzados. p. 114.

26 de jun de 2017

O absurdo da vida em "O mito de Sísifo"

Se a vida possui um verdadeiro sentido e se vale a pena ou não ser vivida são questões inerentes à existência humana e, por isso, se apresentam fundamentais à Filosofia. Diversas têm sido as justificativas pelas quais o homem responde a tais perguntas, seja de forma afirmativa ou negativa. De qualquer forma, não há uma resposta única, última, absoluta, de maneira que cada ser humano precisa, em sua existência, questionar-se sobre as mesmas questões, cujas respostas determinarão seu posicionamento frente a sua própria vida.


O mito de Sísifo

Sísifo, um camponês que fundou a cidade de Corinto, é filho de Éolo, o deus do vento, e foi considerado o homem mais astuto de seu tempo. Sísifo despertou a ira de Zeus quando contou ao deus dos rios, Asopo, que Zeus tinha sequestrado a sua filha Egina. Zeus, ao escapar da fúria de Asopo, vingou-se de Sísifo e ordenou que Hades o levasse ao Tártaro, um mundo subterrâneo onde viviam as almas condenadas. Sísifo pediu então a sua esposa, Mérope, que não o enterrasse. Com isso, já no Tártaro, ele persuadiu Perséfone a deixar-lhe voltar à vida para organizar seu sepultamento e se vingar dos negligentes que não o fizeram. Ela o deixou ir por três dias, mas ele quebrou sua promessa, até que Hermes foi indicado a trazê-lo à força novamente.

Sísifo, então, recebeu uma punição exemplar: rolar diariamente uma grande pedra até o cume de uma montanha. Ao chegar ao topo, a pedra rolaria novamente até o chão, condenando-o a começar tudo de novo, infinitamente. 



Transformamos a pedra que Sísifo carrega montanha acima, todos os dias, em nossa rotina de trabalhos repetitivos e sonhos insaciáveis. Quando por fim nos damos conta que nossa existência é absurda, isto é, que uma razão profunda de viver mostra-se inconcebível, então, despertamos. Portanto, o absurdo se refere ao conflito entre a tendência humana de buscar significado inerente à vida e a sua inabilidade para encontrá-lo.

Para Camus (1989), é a beleza que as pessoas encontram na vida que a faz valer a pena. É possível criar um sentido para a vida, que pode não ser um sentido filosoficamente objetivo e universal, mas consiste em algo pelo que lutar. Sísifo, consciente do absurdo, é um ser que vive a vida ao máximo e despreza seu sofrimento. 

Deixo Sísifo na base da montanha! As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que  nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que está tudo bem. Esse universo, doravante sem dono, não lhe parece  estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo.  A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz”. (Camus, 1989)


Referências:

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo: Ensaio sobre o Absurdo. Tradução e apresentação de Mauro Gama, Editora Guanabara, 1989.

24 de jun de 2017

Tasseografia: um poema, um desenho.


Tasseografia

Bebi teus olhos castanhos 
feito café em manhã de chuva

o último gole, porém,
revelou-me o vazio
de uma xícara sem borra.

e eu, dos tolos o pior,
num maldizer sem ouvidos
— ao inferno
todos os oráculos do mundo!

a persistência da ilusão
transborda a lacuna do teu amor
e mais água já ferve na chaleira.

(Fevereiro, 2017)

8 de jun de 2017

Cartas a um jovem poeta

[Repostando]

Worpswede, Bremen, 16 de julho de 1903.


"Se se prender à natureza, ao que nela existe de simples e pequeno, àquilo que quase ninguém observa e que, de repente, se metamorfoseia no infinitamente grande, no incomensurável, - se estender o seu amor a tudo que vive - se humildemente tentar ganhar a confiança do que lhe parece mesquinho - então tudo lhe será mais fácil, tudo lhe parecerá mais harmonioso e, por assim dizer, mais repousante. A sua inteligência, espantada, ficará talvez na retaguarda, mas a sua consciência mais profunda despertará e compreenderá. É tão jovem, tão inexperiente ainda diante das coisas, que desejaria pedir-lhe, o melhor que soubesse, uma grande paciência para tudo o que ainda não estiver decidido no seu coração. Esforce-se por amar as suas próprias dúvidas, como se cada uma delas fosse um quarto fechado, um livro escrito em idioma estrangeiro. Não procure respostas que não lhe podem ser dadas, porque não saberia ainda colocá-las em prática e vivê-las. E trata-se, precisamente, de viver tudo [...]."

Rainer Maria Rilke

7 de jun de 2017

Desenho: Slytherin girl

Olá. Eu fiz esse desenho, há algumas semanas, para uma colega que curte Harry Potter. Ela me descreveu como queria o desenho e eu coloquei a ideia no papel. Tive que pesquisar sobre o universo HP, pois não sabia o que era relíquias da morte, giratempo etc. Assisti a alguns filmes e achei bem legal, mas nunca terminei (tenho um problema para acompanhar histórias muito longas...) .

Em relação ao desenho, gostei da janela, das flores e dos tijolos (parece que a janela está torta, mas é só na foto). Feito com aquarela e caneta preta.



Sentido para a vida

3 de jun de 2017

O rosto, o trem, a paisagem.

[

Nota: Comecei a ler "País das neves", pois, em um grupo de leitores do Whatsapp, alguém comentou que Gabriel Garcia Marquez tinha alguma ligação com Yasunari Kawabata (escritor japonês que, até então, eu nunca ouvira falar). 

O trecho abaixo ocorre em uma viagem de trem ao país das neves. Um passageiro, Shimamura, observa uma moça através do reflexo no vidro da janela.

Achei muito bonita essa parte do livro. A cena foi tão belamente descrita, que é difícil acreditar que a imagem surgiu em minha mente a partir de um conjunto de palavras. Sinto que eu estava no mesmo trem que Shimamura.

]

• • • • • • • 

"Na profundidade do vidro a paisagem noturna corria, fundindo-se como as figuras refletidas, como dois filmes superpostos. As figuras e o fundo não tinham entre si qualquer afinidade, entretanto as figuras, transparentes e inconsistentes, e o fundo, vago na escuridão, se misturavam numa espécie de mundo simbólico, extraterreno. E quando uma luz perdida entre as montanhas brilhava no meio do rosto da moça, Shimamura sentia doer-lhe no peito aquela beleza indefinível."

Yasunari Kawabata. País das neves. p. 6.