26 de mai de 2017

Quarta-feira sem sol

Ela acordou para não ver o sol se pôr.

E eu, ao caminhar pela longa rua que leva a minha casa, ao fim desta tarde cinza, observei as pessoas em suas tarefas cotidianas e pensei sobre como, diante da morte, tudo parece tão pequeno e sem importância. Exceto o amor. 

Hoje não teve trabalho.
Hoje não teve estudo.
Hoje não teve sentido.

(24 de maio)

Os sonhos vêm e os sonhos vão e o resto é imperfeito.

E há tempos nem os santos
Têm ao certo a medida da maldade
E há tempos são os jovens que adoecem
E há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
A quem procura abrigo e proteção
Meu amor!

Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
Lá em casa tem um poço
Mas a água é muito limpa.

(Há tempos - Legião Urbana)

18 de mai de 2017

Público e privado (por Jaime Pinsky)

Desde que se organizaram em sociedades e superaram o tribalismo, os homens sempre se preocuparam em determinar o que era público e o que era privado. Dirigentes, sacerdotes e líderes militares, geralmente louvados pelos cronistas do seu tempo, nem sempre são representados positivamente quando se apropriam ou tentam se apropriar do que é de todos. Uma leitura atenta da própria Bíblia (no caso, o livro de Reis) vai nos mostrar o rei Davi, há 30 séculos, sendo repreendido pelos profetas por ter se apropriado da mulher de um seu general; a leitura dos livros dos profetas nos revela outros líderes hebreus condenados por gastos excessivos consigo mesmos e seus familiares enquanto a população passava fome e não tinha vestes adequadas. Em Atenas, cabia ao conjunto de cidadãos livres definirem, em praça pública, os gastos de seus dirigentes que, de resto, não podiam eternizar-se no poder. Na Idade Média Ocidental, há um verdadeiro retrocesso (e não só nessa área). Os senhores todo-poderosos, assim como os papas e os reis, não davam satisfação para ninguém e criavam impostos e taxas conforme os gastos que tinha, já que, segundo eles, aos camponeses, artesões e comerciantes cabia trabalhar e sustentar a todos, de preferência sem queixas.

O longo desenvolvimento do capitalismo na Europa vai provocar uma batalha entre as forças progressistas e os retrógrados nobres, proprietários de terra e de títulos. Instrumentos criados para frear o livre cambismo moderno tiveram sucesso em alguns lugares, como Portugal e Espanha. Não por acaso, a Holanda e, principalmente, a Inglaterra substituem essas ex-potências e promovem uma virada econômica e social que mostraria um mundo novo, com mais oportunidades às pessoas, independente de seu nascimento. Não por acaso, também, são países em que rapidamente se estabeleceu uma distância entre o público e o privado, seja por meio de documentos oficiais, seja pela prática cotidiana (o direito consuetudinário). A eficiência, necessária ao capitalismo, era incompatível com um esquema patrimonialista que vigorava até então. A meritocracia deveria substituir a colocação de amigos em quadros-chave, a qualificação das pessoas deveria superar a esperteza e o círculo de amizade. 

A Revolução Francesa não vai apenas definir com clareza os direitos humanos, romper barreiras pré-econômicas, estabelecer a necessidade de constituições escritas, emancipar mulheres e minorias étnicas, adequar as leis às novas necessidades de uma sociedade burguesa: vai, também, exigir com careza a separação entre o público e o privado. Dirigir não deveria mais significar ter o direito de fazer o que quiser e de se apropriar do que se tem vontade. Pelo trabalho, o indivíduo deveria ser adequadamente remunerado; para representar corretamente as funções públicas, mesmo não sendo pessoa de posses, precisaria de uma verba, não por acaso, chamada “de representação”; não poderia, em hipótese alguma, se apropriar do que não era seu, mas da coletividade – exatamente das pessoas que o escolheram para cuidar do que é púbico. 

O síndico de um prédio que combina a pintura externa do edifício e exige (como “prêmio” por ter escolhido uma determinada empresa) a pintura gratuita da sala da sua casa é um bom e claro exemplo de corrupção, de como não se deve gerir o bem público. Parece, contudo, que comportamento equivalente ocorre com governantes quando contratam empreiteiras para construir viadutos e pontes, ou mesmo asfaltar as ruas da cidade (será por isso que o asfalto no Brasil dura tão pouco, ao contrário de cidades como Nova York, onde a oscilação anual de temperatura chega a quase 50 graus?). Enfiar amigos e correligionários em estatais, tornando-as menos eficientes, mas resolvendo problemas de cabos eleitoras e doadores de campanha, vem sendo uma atitude normal, tanto no legislativo como no executivo. Pagar viagens de terceiros, não imposta se namoradas, filhas ou esposas (até sogras!) com dinheiro público é simplesmente um escândalo, uma volta no tempo e uma âncora que dificulta o crescimento do país. Mas é uma prática recorrente.

Claro que ministros, deputados, senadores, assim como prefeitos, governadores e o próprio presidente da República precisam ter condições para desempenhar suas funções. Mas não é possível que continuem agindo como se tivessem sido autorizados por nós, o povo, a gastar nosso dinheiro da forma que bem entenderem, como se fosse seu.

O tempo dos faraós já passou. O dos reis absolutos também. Não se trata de “simples” corrupção, como querem alguns. Trata-se de atirar o país em um passado em que não nos interessa viver.

PINSKY, Jaime. Por que gostamos de História. São Paulo: Contexto, 2003. p. 28-30.

14 de mai de 2017

Fim de tarde com você

Nem penso muito no que pode acontecer
enquanto arrumo todas as coisas que eu sinto
o meu passado e o meu destino
e espero que o fim da tarde venha com você.


 

O bobo sincero

"Bobo: Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio."

William Shakespeare. O Rei Lear. p. 41.

13 de mai de 2017

Seis palavras para a minha vida

Esse é o primeiro desenho de uma pessoa que sonha em trilhar o caminho do lettering. E essas são seis coisas que considero fundamentais na vida. E isso é tudo, pessoal.


12 de mai de 2017

Morrer a todo instante

"[...] oh, a doçura da vida nos faz aceitar o horror de morrer a todo instante quando seria preferível morrer de uma vez."

William Shakespeare. O Rei Lear. p. 134.

Arrepender-se

"Não sei se seus olhos vêem bem em redor;
É comum perder-se o bom por querer o melhor."

William Shakespeare. O Rei Lear. p. 39.

10 de mai de 2017

Edmundo contra a astrologia

"Eis a sublime estupidez do mundo; quando nossa fortuna está abalada — muitas vezes pelo excesso de nossos próprios atos — culpamos o sol, a lua e as estrelas pelos nossos desastres; como se fôssemos canalhas por necessidade, idiotas por influência celeste; escroques, ladrões e traidores por comando do zodíaco; bêbados, mentirosos e adúlteros por forçada obediência a determinações dos planetas; como se toda a perversidade que há em nós fosse pura instigação divina. É a admirável desculpa do homem devasso — responsabiliza uma estrela por sua devassidão. Meu pai se entendeu com minha mãe sob a Cauda do Dragão e vim ao mundo sob a Ursa Maior; portanto devo ser lascivo e perverso. Bah! Eu seria o que sou, mesmo que a estrela mais virginal do firmamento tivesse iluminado a minha bastardia."

William Shakespeare. O Rei Lear. p. 22.

O rei Lear

"Julgas que o dever terá medo de falar quando o poder se curva à adulação? A honra tem de ser sincera quando a majestade se perde na loucura. Conserva o teu comando, considera e reflete, freia esse impulso hediondo. Respondo por minha opinião com a minha vida; tua filha mais moça não é a que te ama menos; não está vazio o coração cujo som, por isso mesmo, não ressoa."

William Shakespeare. O Rei Lear. p. 12.

Ford Madox Brown, 'Lear and Cordelia' 1849–54