1 de fev de 2017

Sobre ateísmo (por André Cancian)

Ateu: "aquele que não acredita na existência de qualquer deus ou deuses."

"[...] a posição ateísta, em si mesma, não é positiva, não possui qualquer conteúdo, pois não representa algo, mas a mera ausência de algo [...]."

"Desse modo, a definição de ateísmo não subentende qualquer espécie de descrição prática do indivíduo. Nessa classificação, aquilo que os ateus fazem de suas vidas não é levado em consideração absolutamente. Ao contrário de outros ismos — como cristianismo, judaísmo, espiritismo, xintoísmo, hinduísmo, islamismo —, o ateísmo não é um estilo de vida nem uma doutrina dotada de um corpo de conhecimentos ou princípios, mas somente uma classificação acerca do posicionamento ou estado intelectual do indivíduo em relação à ideia de deus. Isso significa que o ateísmo não tem natureza análoga às religiões."

"Uma vez que o ateísmo é apenas uma classificação — e não uma doutrina ou uma cosmovisão —, logicamente não incorpora qualquer espécie de valores, princípios morais ou noção de ética. É exatamente devido a esse fato que muitos indivíduos, inadvertidamente, classificam os ateus como imorais. Deve ficar claro, entretanto, que a ausência de um conjunto de valores morais, na verdade, refere-se somente ao ateísmo em si mesmo, de modo que, na prática, isso não implica qualquer incompatibilidade entre ambas as coisas."

"[...] os ateus escolhem individualmente — visando seus objetivos, suas necessidades — quais são os valores que melhor lhes servirão para guiar suas vidas em função do sentido que escolheram para elas. Ou seja, o que não existe é uma moral ateísta no sentido em que falamos de uma moral cristã."

"A grande frequência com que se tenta corroborar ou refutar o ateísmo através de julgamentos e valores morais apenas demonstra uma lamentável leviandade (ex.: 'ateus também fazem caridades' ou 'muitos ateus são criminosos').

"Há também uma grande tendência de se querer vincular a responsabilidade das ações à visão de mundo do indivíduo, e tal tendência está ligada à ideia de que esta sempre vem carregada de valores e deveres — nesse caso, também vinculada ao mal entendido de que o ateísmo é uma crença positiva. Por exemplo, se um cristão faz caridades em nome de Deus e usa a Bíblia para justificar tal efeito, então se pode dizer que o cristianismo é, em certo grau, responsável por tal ação. Diferentemente, o ateísmo encontra-se alheio a todo esse rebuliço de valores que humanos cultivam. Se um ateu faz algo bom ou mau, isso não se deve ao ateísmo, pois o ateísmo não diz coisa alguma a respeito do que devemos ou não fazer. O ateísmo não diz o que é bom nem o que é mal, muito menos o que é certo ou errado. Ele não arrasta  consigo nenhuma espécie de valor, e é por isso que não se pode atribuir-lhe qualquer tipo de responsabilidade. Tudo recai tão somente sobre os ombros do arbítrio individual, não sendo possível qualquer espécie de generalização da causa de seu ato que venha a abarcar o ateísmo."


CANCIAN, André. Ateísmo & Liberdade. 2002. p. 26-27.

Um comentário:

Gugu Keller disse...

O que por deus se dá e deu adeus lhe dá e endeusa o ateu.
GK