22 de fev de 2017

What will your verse be?

“To quote from Whitman, ‘O me! O life!… of the questions of these recurring; of the endless trains of the faithless… of cities filled with the foolish; what good amid these, O me, O life?’ Answer. That you are here — that life exists, and identity; that the powerful play goes on and you may contribute a verse. That the powerful play goes on and you may contribute a verse. What will your verse be?” 

—Mr. Keating played by Robin Williams in Dead Poets Society

9 de fev de 2017

KUKONDA

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Gravuras feitas com isopor e tinta & editadas no photoshop.

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KUKONDA

Um lugar feito de histórias.


PARTE I











5 de fev de 2017

O Livro das Ignorãças

Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe.
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho:
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios — e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três
fios de teias de aranha. A coisa fica bem
esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
incompletude?)

Manoel de Barros
[em O Livro das Ignorãças]

Manoel de Barros. Meu quintal é maior do que o mundo. Antologia. 2015. p. 71.

4 de fev de 2017

Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada

I

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
— Imagens são palavras que nos faltaram.
— Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
— Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo).
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos,
retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II

Todos os caminhos — nenhum caminho
Muitos caminhos — nenhum caminho
Nenhum caminho — a maldição dos poetas.

[…]

V

Escrever nem uma coisa
Nem outra —
A fim de dizer todas —
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar —
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

Manoel de Barros 
[em O Guardador de Águas]


Manoel de Barros. Meu quintal é maior do que o mundo. Antologia. 2015. p. 59-60.

1 de fev de 2017

Sobre ateísmo (por André Cancian)

Ateu: "aquele que não acredita na existência de qualquer deus ou deuses."

"[...] a posição ateísta, em si mesma, não é positiva, não possui qualquer conteúdo, pois não representa algo, mas a mera ausência de algo [...]."

"Desse modo, a definição de ateísmo não subentende qualquer espécie de descrição prática do indivíduo. Nessa classificação, aquilo que os ateus fazem de suas vidas não é levado em consideração absolutamente. Ao contrário de outros ismos — como cristianismo, judaísmo, espiritismo, xintoísmo, hinduísmo, islamismo —, o ateísmo não é um estilo de vida nem uma doutrina dotada de um corpo de conhecimentos ou princípios, mas somente uma classificação acerca do posicionamento ou estado intelectual do indivíduo em relação à ideia de deus. Isso significa que o ateísmo não tem natureza análoga às religiões."

"Uma vez que o ateísmo é apenas uma classificação — e não uma doutrina ou uma cosmovisão —, logicamente não incorpora qualquer espécie de valores, princípios morais ou noção de ética. É exatamente devido a esse fato que muitos indivíduos, inadvertidamente, classificam os ateus como imorais. Deve ficar claro, entretanto, que a ausência de um conjunto de valores morais, na verdade, refere-se somente ao ateísmo em si mesmo, de modo que, na prática, isso não implica qualquer incompatibilidade entre ambas as coisas."

"[...] os ateus escolhem individualmente — visando seus objetivos, suas necessidades — quais são os valores que melhor lhes servirão para guiar suas vidas em função do sentido que escolheram para elas. Ou seja, o que não existe é uma moral ateísta no sentido em que falamos de uma moral cristã."

"A grande frequência com que se tenta corroborar ou refutar o ateísmo através de julgamentos e valores morais apenas demonstra uma lamentável leviandade (ex.: 'ateus também fazem caridades' ou 'muitos ateus são criminosos').

"Há também uma grande tendência de se querer vincular a responsabilidade das ações à visão de mundo do indivíduo, e tal tendência está ligada à ideia de que esta sempre vem carregada de valores e deveres — nesse caso, também vinculada ao mal entendido de que o ateísmo é uma crença positiva. Por exemplo, se um cristão faz caridades em nome de Deus e usa a Bíblia para justificar tal efeito, então se pode dizer que o cristianismo é, em certo grau, responsável por tal ação. Diferentemente, o ateísmo encontra-se alheio a todo esse rebuliço de valores que humanos cultivam. Se um ateu faz algo bom ou mau, isso não se deve ao ateísmo, pois o ateísmo não diz coisa alguma a respeito do que devemos ou não fazer. O ateísmo não diz o que é bom nem o que é mal, muito menos o que é certo ou errado. Ele não arrasta  consigo nenhuma espécie de valor, e é por isso que não se pode atribuir-lhe qualquer tipo de responsabilidade. Tudo recai tão somente sobre os ombros do arbítrio individual, não sendo possível qualquer espécie de generalização da causa de seu ato que venha a abarcar o ateísmo."


CANCIAN, André. Ateísmo & Liberdade. 2002. p. 26-27.

Sobre o ensino de História

“Ora, a presença do homem civilizado neste planeta tem poucos milhares de anos, durante os quais tem causado terríveis males: destruímos sem dó a natureza, submetemos os mais fracos, matamos por atacado e a varejo, deixamos um terço da população mundial com fome, exterminamos os índios, causamos a morte de muitas civilizações e a desaparição de um sem-número de línguas. Mas, diga-se a nosso favor, não é só isso que fazemos. Escrevemos poesia sublime, peças de teatro envolventes e romances maravilhosos. Criamos deuses e categorias complexas de pensamento: tentamos compreender o que nos cerca, investigamos o universo e o átomo. O professor de História não pode ficar preso apenas a modos de produção e de opressão (embora isso seja fundamental). Pode (e deve) mostrar que tivemos a capacidade, graças à cultura que produzimos, de nos vestir melhor que os ursos, de construir casas mais seguras que o joão-de-barro, de combater com mais eficiência que o tigre, embora cada um de nós, seres humanos, tenha vindo ao mundo desprovido de pelos espessos, asas ou garras. Cada estudante precisa se perceber, de fato, como sujeito histórico, e isso não se consegue apenas com histórias de família, do bairro, ou da cidade. Nós nos sentimos agentes históricos quando nos damos conta dos esforços que nossos antepassados fizeram para atingirmos o estágio civilizatório a que chegamos. Para o mal, mas também para o bem.” 

PINSKY, Jaime. Por que gostamos de História. São Paulo: Contexto, 2003. p. 24