7 de ago de 2017

But I ain't got no brains in my heart.

Há poucos minutos descobri essa música do The White Bufallo e gostei muito.


Every single thought inside my head
Telling me that this old heart is dead
But I ain't got no brains in my heart
...

Every solitary bone inside of me
Telling me that it's my time to leave
But I ain't got no bones in my heart
...

Hearts aren't always red
They're black and blue
But I got you
...

The White Buffalo - I Got You (feat. Audra Mae)

6 de ago de 2017

mulher que diz tchau

"Levo comigo um maço vazio e amassado de Republicana e uma revista velha que ficou por aqui. Levo comigo as duas últimas passagens de trem. Levo comigo um guardanapo de papel com minha cara que você desenhou, da boca sai um balãozinho com palavras, as palavras dizem coisas engraçadas. Também levo comigo uma folha de acácia recolhida na rua, uma outra noite, quando caminhávamos separados pela multidão. E outra folha, petrificada, branca, com um furinho como uma janela, e a janela estava fechada pela água e eu soprei e vi você e esse foi o dia em que a sorte começou.

Levo comigo o gosto do vinho na boca. (Por todas as coisas boas, diziamos, todas as coisas cada vez melhores que nos vão acontecer.)

Não levo uma única gota de veneno. Levo os beijos de quando você partia (eu nunca estava dormindo, nunca). E um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi."

Eduardo Galeano. Vagamundo. p. 25.

17 de jul de 2017

Desenho: flores e insetos

Olá! :)

Estou de férias! Ou seja, tenho tempo para fazer nada & desenhar.
Passei a tarde treinando desenhos de flores e insetos, com aquarela e caneta preta.
Tem uma sombra nas fotografias, mas acabou a bateria da câmera e eu não quis tirar outras fotos, então convivam com essa dor. 

PS.: Eu deveria comprar um celular novo com uma câmera decente. Tenho um dinheiro guardado, mas estou em dúvida entre comprar um celular ou uma bicicleta (é sério!), hahaha. 

Abraço!




3 de jul de 2017

Minha alma é um tinteiro vazio

"[...] minha alma é um tinteiro vazio. Que Diabo quererá tomá-la em pagamento para assegurar-me a realização de minha obra? 

O Diabo devia ser a carta que mais frequentemente se encontra em meu ofício: a matéria-prima do escrever não estará toda por acaso nesse ressurgir à superfície de grifos peludos, assanhamentos caninos, chifradas caprinas, violências interditas que bracejam nas trevas?"

Italo Calvino. O castelo dos destinos cruzados. p. 138.

Fonte

"Mas há fontes que — alguém entre nós certamente pensou — assim que delas se bebe provocam ainda mais sede, em vez de aplacá-la."

Italo Calvino. O castelo dos destinos cruzados. p. 17.

30 de jun de 2017

A Cidade do Tudo

“Que cidade é essa? Será a Cidade do Tudo? A cidade em que todas as partes se conjugam, as escolhas se contrabalançam, onde se enche o vazio que existe sempre entre o que se espera da vida e aquilo que nos toca?”

Italo Calvino. O castelo dos destinos cruzados. p. 83

28 de jun de 2017

A palavra escrita

"Entre os utensílios do eremita há até um crânio: a palavra escrita tem sempre presente a anulação da pessoa que escreveu ou daquela que lera. A natureza inarticulada engloba em seu discurso todo o discurso humano."

Italo Calvino. O castelo dos destinos cruzados.p. 144.

Os mortos e os vivos

"E chega então o momento em que o coveiro entra em cena e descarrega a sua tirada: — Para afastar o pensamento da morte os cidadãos escondem os cadáveres aqui embaixo, de qualquer maneira. Mas depois, por mais que o afastem, acabam pensando melhor e voltam aqui para verificar se os mortos estão bem sepultos, se pelo fato de serem mortos são alguma coisa diferente dos vivos, pois de outra forma os vivos não estariam tão seguros de serem vivos, digo bem?"

Italo Calvino. O castelo dos destinos cruzados. p. 114.

26 de jun de 2017

O absurdo da vida em "O mito de Sísifo"

Se a vida possui um verdadeiro sentido e se vale a pena ou não ser vivida são questões inerentes à existência humana e, por isso, se apresentam fundamentais à Filosofia. Diversas têm sido as justificativas pelas quais o homem responde a tais perguntas, seja de forma afirmativa ou negativa. De qualquer forma, não há uma resposta única, última, absoluta, de maneira que cada ser humano precisa, em sua existência, questionar-se sobre as mesmas questões, cujas respostas determinarão seu posicionamento frente a sua própria vida.


O mito de Sísifo

Sísifo, um camponês que fundou a cidade de Corinto, é filho de Éolo, o deus do vento, e foi considerado o homem mais astuto de seu tempo. Sísifo despertou a ira de Zeus quando contou ao deus dos rios, Asopo, que Zeus tinha sequestrado a sua filha Egina. Zeus, ao escapar da fúria de Asopo, vingou-se de Sísifo e ordenou que Hades o levasse ao Tártaro, um mundo subterrâneo onde viviam as almas condenadas. Sísifo pediu então a sua esposa, Mérope, que não o enterrasse. Com isso, já no Tártaro, ele persuadiu Perséfone a deixar-lhe voltar à vida para organizar seu sepultamento e se vingar dos negligentes que não o fizeram. Ela o deixou ir por três dias, mas ele quebrou sua promessa, até que Hermes foi indicado a trazê-lo à força novamente.

Sísifo, então, recebeu uma punição exemplar: rolar diariamente uma grande pedra até o cume de uma montanha. Ao chegar ao topo, a pedra rolaria novamente até o chão, condenando-o a começar tudo de novo, infinitamente. 



Transformamos a pedra que Sísifo carrega montanha acima, todos os dias, em nossa rotina de trabalhos repetitivos e sonhos insaciáveis. Quando por fim nos damos conta que nossa existência é absurda, isto é, que uma razão profunda de viver mostra-se inconcebível, então, despertamos. Portanto, o absurdo se refere ao conflito entre a tendência humana de buscar significado inerente à vida e a sua inabilidade para encontrá-lo.

Para Camus (1989), é a beleza que as pessoas encontram na vida que a faz valer a pena. É possível criar um sentido para a vida, que pode não ser um sentido filosoficamente objetivo e universal, mas consiste em algo pelo que lutar. Sísifo, consciente do absurdo, é um ser que vive a vida ao máximo e despreza seu sofrimento. 

Deixo Sísifo na base da montanha! As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que  nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que está tudo bem. Esse universo, doravante sem dono, não lhe parece  estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo.  A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz”. (Camus, 1989)


Referências:

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo: Ensaio sobre o Absurdo. Tradução e apresentação de Mauro Gama, Editora Guanabara, 1989.

24 de jun de 2017

Tasseografia: um poema, um desenho.


Tasseografia

Bebi teus olhos castanhos 
feito café em manhã de chuva

o último gole, porém,
revelou-me o vazio
de uma xícara sem borra.

e eu, dos tolos o pior,
num maldizer sem ouvidos
— ao inferno
todos os oráculos do mundo!

a persistência da ilusão
transborda a lacuna do teu amor
e mais água já ferve na chaleira.

(Fevereiro, 2017)

8 de jun de 2017

Cartas a um jovem poeta

[Repostando]

Worpswede, Bremen, 16 de julho de 1903.


"Se se prender à natureza, ao que nela existe de simples e pequeno, àquilo que quase ninguém observa e que, de repente, se metamorfoseia no infinitamente grande, no incomensurável, - se estender o seu amor a tudo que vive - se humildemente tentar ganhar a confiança do que lhe parece mesquinho - então tudo lhe será mais fácil, tudo lhe parecerá mais harmonioso e, por assim dizer, mais repousante. A sua inteligência, espantada, ficará talvez na retaguarda, mas a sua consciência mais profunda despertará e compreenderá. É tão jovem, tão inexperiente ainda diante das coisas, que desejaria pedir-lhe, o melhor que soubesse, uma grande paciência para tudo o que ainda não estiver decidido no seu coração. Esforce-se por amar as suas próprias dúvidas, como se cada uma delas fosse um quarto fechado, um livro escrito em idioma estrangeiro. Não procure respostas que não lhe podem ser dadas, porque não saberia ainda colocá-las em prática e vivê-las. E trata-se, precisamente, de viver tudo [...]."

Rainer Maria Rilke

7 de jun de 2017

Desenho: Slytherin girl

Olá. Eu fiz esse desenho, há algumas semanas, para uma colega que curte Harry Potter. Ela me descreveu como queria o desenho e eu coloquei a ideia no papel. Tive que pesquisar sobre o universo HP, pois não sabia o que era relíquias da morte, giratempo etc. Assisti a alguns filmes e achei bem legal, mas nunca terminei (tenho um problema para acompanhar histórias muito longas...) .

Em relação ao desenho, gostei da janela, das flores e dos tijolos (parece que a janela está torta, mas é só na foto). Feito com aquarela e caneta preta.



Sentido para a vida

3 de jun de 2017

O rosto, o trem, a paisagem.

[

Nota: Comecei a ler "País das neves", pois, em um grupo de leitores do Whatsapp, alguém comentou que Gabriel Garcia Marquez tinha alguma ligação com Yasunari Kawabata (escritor japonês que, até então, eu nunca ouvira falar). 

O trecho abaixo ocorre em uma viagem de trem ao país das neves. Um passageiro, Shimamura, observa uma moça através do reflexo no vidro da janela.

Achei muito bonita essa parte do livro. A cena foi tão belamente descrita, que é difícil acreditar que a imagem surgiu em minha mente a partir de um conjunto de palavras. Sinto que eu estava no mesmo trem que Shimamura.

]

• • • • • • • 

"Na profundidade do vidro a paisagem noturna corria, fundindo-se como as figuras refletidas, como dois filmes superpostos. As figuras e o fundo não tinham entre si qualquer afinidade, entretanto as figuras, transparentes e inconsistentes, e o fundo, vago na escuridão, se misturavam numa espécie de mundo simbólico, extraterreno. E quando uma luz perdida entre as montanhas brilhava no meio do rosto da moça, Shimamura sentia doer-lhe no peito aquela beleza indefinível."

Yasunari Kawabata. País das neves. p. 6.


26 de mai de 2017

Quarta-feira sem sol

Ela acordou para não ver o sol se pôr.

E eu, ao caminhar pela longa rua que leva a minha casa, ao fim desta tarde cinza, observei as pessoas em suas tarefas cotidianas e pensei sobre como, diante da morte, tudo parece tão pequeno e sem importância. Exceto o amor. 

Hoje não teve trabalho.
Hoje não teve estudo.
Hoje não teve sentido.

(24 de maio)

Os sonhos vêm e os sonhos vão e o resto é imperfeito.

E há tempos nem os santos
Têm ao certo a medida da maldade
E há tempos são os jovens que adoecem
E há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
A quem procura abrigo e proteção
Meu amor!

Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
Lá em casa tem um poço
Mas a água é muito limpa.

(Há tempos - Legião Urbana)

18 de mai de 2017

Público e privado (por Jaime Pinsky)

Desde que se organizaram em sociedades e superaram o tribalismo, os homens sempre se preocuparam em determinar o que era público e o que era privado. Dirigentes, sacerdotes e líderes militares, geralmente louvados pelos cronistas do seu tempo, nem sempre são representados positivamente quando se apropriam ou tentam se apropriar do que é de todos. Uma leitura atenta da própria Bíblia (no caso, o livro de Reis) vai nos mostrar o rei Davi, há 30 séculos, sendo repreendido pelos profetas por ter se apropriado da mulher de um seu general; a leitura dos livros dos profetas nos revela outros líderes hebreus condenados por gastos excessivos consigo mesmos e seus familiares enquanto a população passava fome e não tinha vestes adequadas. Em Atenas, cabia ao conjunto de cidadãos livres definirem, em praça pública, os gastos de seus dirigentes que, de resto, não podiam eternizar-se no poder. Na Idade Média Ocidental, há um verdadeiro retrocesso (e não só nessa área). Os senhores todo-poderosos, assim como os papas e os reis, não davam satisfação para ninguém e criavam impostos e taxas conforme os gastos que tinha, já que, segundo eles, aos camponeses, artesões e comerciantes cabia trabalhar e sustentar a todos, de preferência sem queixas.

O longo desenvolvimento do capitalismo na Europa vai provocar uma batalha entre as forças progressistas e os retrógrados nobres, proprietários de terra e de títulos. Instrumentos criados para frear o livre cambismo moderno tiveram sucesso em alguns lugares, como Portugal e Espanha. Não por acaso, a Holanda e, principalmente, a Inglaterra substituem essas ex-potências e promovem uma virada econômica e social que mostraria um mundo novo, com mais oportunidades às pessoas, independente de seu nascimento. Não por acaso, também, são países em que rapidamente se estabeleceu uma distância entre o público e o privado, seja por meio de documentos oficiais, seja pela prática cotidiana (o direito consuetudinário). A eficiência, necessária ao capitalismo, era incompatível com um esquema patrimonialista que vigorava até então. A meritocracia deveria substituir a colocação de amigos em quadros-chave, a qualificação das pessoas deveria superar a esperteza e o círculo de amizade. 

A Revolução Francesa não vai apenas definir com clareza os direitos humanos, romper barreiras pré-econômicas, estabelecer a necessidade de constituições escritas, emancipar mulheres e minorias étnicas, adequar as leis às novas necessidades de uma sociedade burguesa: vai, também, exigir com careza a separação entre o público e o privado. Dirigir não deveria mais significar ter o direito de fazer o que quiser e de se apropriar do que se tem vontade. Pelo trabalho, o indivíduo deveria ser adequadamente remunerado; para representar corretamente as funções públicas, mesmo não sendo pessoa de posses, precisaria de uma verba, não por acaso, chamada “de representação”; não poderia, em hipótese alguma, se apropriar do que não era seu, mas da coletividade – exatamente das pessoas que o escolheram para cuidar do que é púbico. 

O síndico de um prédio que combina a pintura externa do edifício e exige (como “prêmio” por ter escolhido uma determinada empresa) a pintura gratuita da sala da sua casa é um bom e claro exemplo de corrupção, de como não se deve gerir o bem público. Parece, contudo, que comportamento equivalente ocorre com governantes quando contratam empreiteiras para construir viadutos e pontes, ou mesmo asfaltar as ruas da cidade (será por isso que o asfalto no Brasil dura tão pouco, ao contrário de cidades como Nova York, onde a oscilação anual de temperatura chega a quase 50 graus?). Enfiar amigos e correligionários em estatais, tornando-as menos eficientes, mas resolvendo problemas de cabos eleitoras e doadores de campanha, vem sendo uma atitude normal, tanto no legislativo como no executivo. Pagar viagens de terceiros, não imposta se namoradas, filhas ou esposas (até sogras!) com dinheiro público é simplesmente um escândalo, uma volta no tempo e uma âncora que dificulta o crescimento do país. Mas é uma prática recorrente.

Claro que ministros, deputados, senadores, assim como prefeitos, governadores e o próprio presidente da República precisam ter condições para desempenhar suas funções. Mas não é possível que continuem agindo como se tivessem sido autorizados por nós, o povo, a gastar nosso dinheiro da forma que bem entenderem, como se fosse seu.

O tempo dos faraós já passou. O dos reis absolutos também. Não se trata de “simples” corrupção, como querem alguns. Trata-se de atirar o país em um passado em que não nos interessa viver.

PINSKY, Jaime. Por que gostamos de História. São Paulo: Contexto, 2003. p. 28-30.

14 de mai de 2017

Fim de tarde com você

Nem penso muito no que pode acontecer
enquanto arrumo todas as coisas que eu sinto
o meu passado e o meu destino
e espero que o fim da tarde venha com você.


 

O bobo sincero

"Bobo: Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio."

William Shakespeare. O Rei Lear. p. 41.

13 de mai de 2017

Seis palavras para a minha vida

Esse é o primeiro desenho de uma pessoa que sonha em trilhar o caminho do lettering. E essas são seis coisas que considero fundamentais na vida. E isso é tudo, pessoal.


12 de mai de 2017

Morrer a todo instante

"[...] oh, a doçura da vida nos faz aceitar o horror de morrer a todo instante quando seria preferível morrer de uma vez."

William Shakespeare. O Rei Lear. p. 134.

Arrepender-se

"Não sei se seus olhos vêem bem em redor;
É comum perder-se o bom por querer o melhor."

William Shakespeare. O Rei Lear. p. 39.

10 de mai de 2017

Edmundo contra a astrologia

"Eis a sublime estupidez do mundo; quando nossa fortuna está abalada — muitas vezes pelo excesso de nossos próprios atos — culpamos o sol, a lua e as estrelas pelos nossos desastres; como se fôssemos canalhas por necessidade, idiotas por influência celeste; escroques, ladrões e traidores por comando do zodíaco; bêbados, mentirosos e adúlteros por forçada obediência a determinações dos planetas; como se toda a perversidade que há em nós fosse pura instigação divina. É a admirável desculpa do homem devasso — responsabiliza uma estrela por sua devassidão. Meu pai se entendeu com minha mãe sob a Cauda do Dragão e vim ao mundo sob a Ursa Maior; portanto devo ser lascivo e perverso. Bah! Eu seria o que sou, mesmo que a estrela mais virginal do firmamento tivesse iluminado a minha bastardia."

William Shakespeare. O Rei Lear. p. 22.

O rei Lear

"Julgas que o dever terá medo de falar quando o poder se curva à adulação? A honra tem de ser sincera quando a majestade se perde na loucura. Conserva o teu comando, considera e reflete, freia esse impulso hediondo. Respondo por minha opinião com a minha vida; tua filha mais moça não é a que te ama menos; não está vazio o coração cujo som, por isso mesmo, não ressoa."

William Shakespeare. O Rei Lear. p. 12.

Ford Madox Brown, 'Lear and Cordelia' 1849–54

5 de mar de 2017

Tchau, radar!

Este mês o blog comemora mais um ano de vida, e eu acho que é hora de parar por aqui. Obrigada.

2 de mar de 2017

Nota sobre biografias

A biografia é o gênero textual que se ocupa em narrar a vida de uma ou mais pessoas. Embora gostasse muito do gênero no ensino médio e início da faculdade (2011), ao longo dos anos adquiri certa rejeição pelo mesmo, não sei exatamente por que razão. Talvez porque não me interessa saber se o avô do Darwin era galanteador e gostava de comer amoras. Mas existem biografias e biografias. Depois de ler a biografia do Darwin (Darwin: Retrato de um gênio - Paul Johnson ) e do Tolkien (JRR Tolkien: O senhor da fantasia - Michael White), resgatei o gosto pelo gênero e percebi que, acima de tudo, as biografias têm o poder de inspirar, seja pelas grandes ideias e atitudes de superação dos personagens, seja pela desconstrução de sua aura divina, isto é, eram humanos e, também, cometeram erros (ou na boa e velha linguagem popular: "são gente como a gente"). Além disso, essas figuras alcançaram sucesso em seus trabalhos graças à dedicação empregada aos mesmos. E dedicação significa tempo, esforço e foco (e eu aposto minha cabeça que Darwin tinha tatuado no antebraço "força, foco e fé"). 

22 de fev de 2017

What will your verse be?

“To quote from Whitman, ‘O me! O life!… of the questions of these recurring; of the endless trains of the faithless… of cities filled with the foolish; what good amid these, O me, O life?’ Answer. That you are here — that life exists, and identity; that the powerful play goes on and you may contribute a verse. That the powerful play goes on and you may contribute a verse. What will your verse be?” 

—Mr. Keating played by Robin Williams in Dead Poets Society

9 de fev de 2017

KUKONDA

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Gravuras feitas com isopor e tinta & editadas no photoshop.

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KUKONDA

Um lugar feito de histórias.


PARTE I











5 de fev de 2017

O Livro das Ignorãças

Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe.
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho:
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios — e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três
fios de teias de aranha. A coisa fica bem
esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
incompletude?)

Manoel de Barros
[em O Livro das Ignorãças]

Manoel de Barros. Meu quintal é maior do que o mundo. Antologia. 2015. p. 71.

4 de fev de 2017

Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada

I

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
— Imagens são palavras que nos faltaram.
— Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
— Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo).
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos,
retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II

Todos os caminhos — nenhum caminho
Muitos caminhos — nenhum caminho
Nenhum caminho — a maldição dos poetas.

[…]

V

Escrever nem uma coisa
Nem outra —
A fim de dizer todas —
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar —
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

Manoel de Barros 
[em O Guardador de Águas]


Manoel de Barros. Meu quintal é maior do que o mundo. Antologia. 2015. p. 59-60.

1 de fev de 2017

Sobre ateísmo (por André Cancian)

Ateu: "aquele que não acredita na existência de qualquer deus ou deuses."

"[...] a posição ateísta, em si mesma, não é positiva, não possui qualquer conteúdo, pois não representa algo, mas a mera ausência de algo [...]."

"Desse modo, a definição de ateísmo não subentende qualquer espécie de descrição prática do indivíduo. Nessa classificação, aquilo que os ateus fazem de suas vidas não é levado em consideração absolutamente. Ao contrário de outros ismos — como cristianismo, judaísmo, espiritismo, xintoísmo, hinduísmo, islamismo —, o ateísmo não é um estilo de vida nem uma doutrina dotada de um corpo de conhecimentos ou princípios, mas somente uma classificação acerca do posicionamento ou estado intelectual do indivíduo em relação à ideia de deus. Isso significa que o ateísmo não tem natureza análoga às religiões."

"Uma vez que o ateísmo é apenas uma classificação — e não uma doutrina ou uma cosmovisão —, logicamente não incorpora qualquer espécie de valores, princípios morais ou noção de ética. É exatamente devido a esse fato que muitos indivíduos, inadvertidamente, classificam os ateus como imorais. Deve ficar claro, entretanto, que a ausência de um conjunto de valores morais, na verdade, refere-se somente ao ateísmo em si mesmo, de modo que, na prática, isso não implica qualquer incompatibilidade entre ambas as coisas."

"[...] os ateus escolhem individualmente — visando seus objetivos, suas necessidades — quais são os valores que melhor lhes servirão para guiar suas vidas em função do sentido que escolheram para elas. Ou seja, o que não existe é uma moral ateísta no sentido em que falamos de uma moral cristã."

"A grande frequência com que se tenta corroborar ou refutar o ateísmo através de julgamentos e valores morais apenas demonstra uma lamentável leviandade (ex.: 'ateus também fazem caridades' ou 'muitos ateus são criminosos').

"Há também uma grande tendência de se querer vincular a responsabilidade das ações à visão de mundo do indivíduo, e tal tendência está ligada à ideia de que esta sempre vem carregada de valores e deveres — nesse caso, também vinculada ao mal entendido de que o ateísmo é uma crença positiva. Por exemplo, se um cristão faz caridades em nome de Deus e usa a Bíblia para justificar tal efeito, então se pode dizer que o cristianismo é, em certo grau, responsável por tal ação. Diferentemente, o ateísmo encontra-se alheio a todo esse rebuliço de valores que humanos cultivam. Se um ateu faz algo bom ou mau, isso não se deve ao ateísmo, pois o ateísmo não diz coisa alguma a respeito do que devemos ou não fazer. O ateísmo não diz o que é bom nem o que é mal, muito menos o que é certo ou errado. Ele não arrasta  consigo nenhuma espécie de valor, e é por isso que não se pode atribuir-lhe qualquer tipo de responsabilidade. Tudo recai tão somente sobre os ombros do arbítrio individual, não sendo possível qualquer espécie de generalização da causa de seu ato que venha a abarcar o ateísmo."


CANCIAN, André. Ateísmo & Liberdade. 2002. p. 26-27.

Sobre o ensino de História

“Ora, a presença do homem civilizado neste planeta tem poucos milhares de anos, durante os quais tem causado terríveis males: destruímos sem dó a natureza, submetemos os mais fracos, matamos por atacado e a varejo, deixamos um terço da população mundial com fome, exterminamos os índios, causamos a morte de muitas civilizações e a desaparição de um sem-número de línguas. Mas, diga-se a nosso favor, não é só isso que fazemos. Escrevemos poesia sublime, peças de teatro envolventes e romances maravilhosos. Criamos deuses e categorias complexas de pensamento: tentamos compreender o que nos cerca, investigamos o universo e o átomo. O professor de História não pode ficar preso apenas a modos de produção e de opressão (embora isso seja fundamental). Pode (e deve) mostrar que tivemos a capacidade, graças à cultura que produzimos, de nos vestir melhor que os ursos, de construir casas mais seguras que o joão-de-barro, de combater com mais eficiência que o tigre, embora cada um de nós, seres humanos, tenha vindo ao mundo desprovido de pelos espessos, asas ou garras. Cada estudante precisa se perceber, de fato, como sujeito histórico, e isso não se consegue apenas com histórias de família, do bairro, ou da cidade. Nós nos sentimos agentes históricos quando nos damos conta dos esforços que nossos antepassados fizeram para atingirmos o estágio civilizatório a que chegamos. Para o mal, mas também para o bem.” 

PINSKY, Jaime. Por que gostamos de História. São Paulo: Contexto, 2003. p. 24

25 de jan de 2017

Meu primeiro bordado (entre linhas e pensamentos)

Olááá,

Durante as férias um dos meus passatempos foi aprender a antiga prática de bordar (que tem uma história longa). Só com os vídeos do Youtube, principalmente no canal HandiWorks, já dá pra aprender vários tipos de pontos, de flores etc. Bordar é fácil, só exige paciência. Dá pra fazer coisas incríveis, não só em toalhas, roupas etc., mas a moda da vez é você deixar o bordado no próprio bastidor, transformando-o em um quadrinho (como o que eu fiz, na foto abaixo, para pendurar na porta). 

O custo é baixo (ou não), pois as linhas com 8 metros custam em média R$ 1,50. O bastidor que é um pouco caro, este da foto custou R$ 20,00. Os bastidores com regulagem (para tecidos mais grossos) custam mais (tipo uns R$ 30,00), mas isso, obviamente, depende do diâmetro e do lugar onde você vai comprar (e eu estou falando de Crissiumal...).

Eu sou fã das artes manuais, isto é, daquilo que exige certo estudo, tempo, paciência, trabalho. O que é feito com a própria mão é feito com carinho. Por isso admiro quem faz produtos artesanais, seja bordado, tricô ou pintura; seja queijo, cachaça e bolacha. E o mais legal de tudo não é o produto final, é o processo. Além disso, penso que o fazer artesanal resgata certa humanidade das coisas (agora vou filosofar...), porque você acompanha todo o processo, desde a escolha dos materiais ou ingredientes, até o produto final, e isso, necessariamente, implica saber e dedicação. Ao fim, o valor e/ou o sabor são muito melhores. Esse é um discurso que repito, pois é algo em que acredito (e dizem que é importante acreditar em alguma coisa). E tenho vontade de saber fazer muitas coisas (poderia entrar no campo dos sonhos, mas vou deixar passar)...

Primeiro bordado

Detalhe

Aprendendo os pontos (com o vídeo abaixo)


Quando o neon é bom, toda noite é noite de luar.

Toda vez que falta luz
toda vez que algo nos falta
o invisível nos salta aos olhos.

(Piano Bar - Engenheiros do Hawaii)

Mas não precisamos saber pra onde vamos, nós só precisamos ir.

A dúvida é o preço da pureza
e é inútil ter certeza.

(Infinita Highway - Engenheiros do Hawaii)

15 de jan de 2017

Dom Quixote

Muito prazer, meu nome é otário
vindo de outros tempos mas sempre no horário.

Tudo bem, até pode ser
que os dragões sejam moinhos de vento.


Muito prazer, ao seu dispor, 
se for por amor às causas perdidas.


(Dom Quixote - Engenheiros do Hawaii)

12 de jan de 2017

Receita: Empadinha de coco

Olá,
Para mim, esta é oficialmente a receita mais fácil do mundo! É prática, não precisa de muitos ingredientes e fica pronta rapidamente. É doce, mas na minha opinião, não é aquele doce enjoativo, por isso eu gosto.

Ingredientes

Massa para pastel (pequena)
01 caixinha de leite condensado
01 ovo
01 pacote de coco ralado (eu prefiro usar o grosso)

Modo de preparo

No liquidificador, bata o leite condensado, o ovo e metade da quantidade de coco. Por último, misture o restante do coco (aí o legal é não bater muito, para ele não se desmanchar e apenas se misturar aos outros ingredientes). Coloque a massa para pastel em pequenas forminhas e preencha com o recheio. Coloque para assar até a superfície ficar levemente dourada. Espere esfriar e retire das forminhas. Rende 24 docinhos.

PS.: Existem variações ainda mais fáceis dessa receita na web, mas nunca testei.


11 de jan de 2017

2017

Eu te desejo não parar tão cedo
Pois toda idade tem prazer e medo
E com os que erram feio e bastante
Que você consiga ser tolerante
Quando você ficar triste
Que seja por um dia, e não o ano inteiro
E que você descubra que rir é bom,
mas que rir de tudo é desespero

Eu te desejo, muitos amigos
Mas que em um você possa confiar
E que tenha até inimigos
Pra você não deixar de duvidar


Eu desejo que você ganhe dinheiro
Pois é preciso viver também
E que você diga a ele, pelo menos uma vez,
Quem é mesmo o dono de quem


Desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor pra recomeçar
Pra recomeçar.


(Amor pra recomeçar - Frejat)

9 de jan de 2017

Desenho: Ramona e sua fantástica coleção de insetos

Bonne nuit!

A ideia para este desenho surgiu a partir de uma situação estranha: na mesma semana, entrou um cupim dentro do meu olho (que, felizmente, saiu no dia seguinte) e eu engoli um inseto sem querer (trouxa, haha). Então, minha irmã brincou comigo dizendo que eu estava colecionando insetos dentro do corpo. E foi assim que surgiu:

Ramona e sua fantástica coleção de insetos 

O resto da história você inventa.

Ramona e sua fantástica coleção de insetos

Detalhe

Detalhe

Processo: lápis

Processo: aquarela

2 de jan de 2017

Ouvir estrelas

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo 
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".


Olavo Bilac