1 de dez de 2016

Mundo da lua


Italo Calvino
 O castelo dos destinos cruzados

História de Astolfo na lua


— É aos céus que tu
deves subir, Astolfo — (o
arcano angélico do Juízo
indicava uma ascensão sobrehumana)
—, aos campos
lívidos da Lua, onde um
interminável depósito conserva
dentro de ampolas enfileiradas
— (como na carta de Copas)
— as histórias que os homens
não viveram, os pensamentos
que bateram uma vez aos
portais da consciência e se
desvaneceram para sempre, as
partículas do possível
descartadas no jogo das
combinações, as soluções às
quais se poderia chegar e não
se chega...

p. 56
...
Depois vinha A Roda da
Fortuna, exatamente no ponto
em que esperávamos uma
descrição mais particularizada
do mundo da Lua, que nos
permitisse dar livre curso às
velhas fantasias sobre aquele
mundo ao revés, em que o
asno é rei, o homem é
quadrúpede, as crianças
dirigem os anciãos, os
sonâmbulos governam o timão,
os cidadãos volteiam como
esquilos nas rodas de suas
gaiolas, e quantos outros
paradoxos a imaginação pode
decompor e recompor.
Astolfo havia subido à
procura da Razão no mundo do
gratuito, ele próprio um
Cavaleiro do Gratuito. Que
juízo tirar, para norma da
Terra, dessa Lua de delírio dos
poetas? O cavaleiro tentou fazer
essa pergunta ao primeiro
habitante que encontrou na Lua:
ao personagem retratado no
arcano número um, O Mago,
nome e imagem de significado
controverso que aqui, no
entanto, podia compreender-se
— pelo cálamo que traz à mão
— como sendo um poeta.
Nos pálidos campos da
Lua, Astolfo encontra o poeta,
aplicado em interpolar em sua
trama as rimas de uma oitava,
os fios dos enredos, as razões e
as desrazões. E, se ele habita
bem no meio da Lua — ou é
por ela habitado, como de seu
núcleo mais profundo —, nos
dirá se é verdade que ela
contém o rimário universal das
palavras e das coisas, se ela é
um mundo pleno de sentido, o
oposto da Terra insensata.
— Não, a Lua é um
deserto — essa era a resposta
do poeta, a julgar pela última
carta baixada à mesa: a calva
circunferência do Ás de Ouros
—, desta esfera árida partem
todos os discursos e poemas; e
todas as viagens através de
florestas batalhas tesouros
banquetes alcovas nos trazem
de volta para cá: o centro de
um horizonte vazio.

p. 57/58

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