17 de dez de 2016

Entre o real e o imaginário.

"O luar, em um recinto habitual, projetando a brancura sobre o tapete e mostrando todas as figuras bordadas em detalhe — expondo as minúcias de todos os objetos, porém tão distinto da visibilidade à manhã ou à tarde —, é o meio mais propício para que um escritor de romance conheça melhor seus visitantes ilusórios. Há o pequeno cenário doméstico do apartamento; as cadeiras, cada uma com sua individualidade própria; a mesa de centro, que sustenta uma cesta, um ou dis livros e uma lamparina apagada; o sofá; a estante de livros; o quadro na parede; todos esses detalhes, vistos em tamanha completude, ficam tão espiritualizados pela luz incomum que parecem perder a substância corpórea e transformar-se em coisa do intelecto. Nada é tão pequeno ou tão prosaico que não possa sofrer esta transformação e assim adquirir dignidade. O sapatinho de uma criança; a boneca, sentada na pequena carruagem de vime; o cavalinho de pau — qualquer objeto, enfim, ou qualquer brinquedo usado durante o dia adquire uma qualidade estranha e remota, embora sua presença continue tão vívida como à luz do dia. Assim, por este motivo, o assoalho do cômodo familiar transformou-se em território neutro, situado em algum lugar entre o mundo real e o reino das fadas, onde o Real e o Imaginário podem se encontrar, e cada um imbuir-se da natureza do outro."

A letra escarlate. Nathaniel Hawthorne. p. 40.

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