10 de out de 2016

Nemasangacasè (do idioma kukondês "ato ou efeito de abrir um livro por acaso na página 143 e encontrar um belo poema")

Encontrei minha amiga, Fernanda, por acaso na universidade. E por acaso, também, que ela abriu um livro na página 143 e começou a ler este poema de Antero de Quental. O livro estava sobre a mesa, eu iria devolvê-lo sem nem ao menos ler um parágrafo de suas 800 páginas. Nesta noite, Fernanda mudou o destino do livro, o nosso e o do blog. E, quem sabe, o seu, já que está lendo isto agora.

Incrivelmente, existe uma palavra no idioma kukondês, dialeto de um povo esquecido de uma terra já esquecida, que significa exatamente o ato ou efeito de abrir um livro por acaso na página 143 e encontrar um belo poema. Quase não acreditei, mas sim, Fernanda teve um nemasangacasè!

Então, vamos ao poema:

A Germano Meireles
Só males são reais, só dor existe:
Prazeres só os gera a fantasia;
Em nada [um] imaginar, o bem consiste,
Anda o mal em cada hora e instante e dia.

Se buscamos o que é, o que devia
Por natureza ser não nos assiste;
Se fiamos num bem, que a mente cria,
Que outro remédio há [aí] senão ser triste?

Oh! Quem tanto pudera que passasse
A vida em sonhos só. E nada vira…
Mas, no que se não vê, labor perdido!

Quem fora tão ditoso que olvidasse…
Mas nem seu mal com ele então dormira,
Que sempre o mal pior é ter nascido!

(Antero de Quental)

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