29 de mai de 2016

Racionalidade x Racionalização

"A racionalidade é a melhor proteção contra o erro e a ilusão. Por um lado, existe a racionalidade construtiva que elabora teorias coerentes, verificando o caráter lógico da organização teórica, a compatibilidade entre as idéias que compõem a teoria, a concordância entre suas asserções e os dados empíricos aos quais se aplica: tal racionalidade deve permanecer aberta ao que a contesta para evitar que se feche em doutrina e se converta em racionalização; por outro lado, há a racionalidade crítica exercida particularmente sobre os erros e ilusões das crenças, doutrinas e teorias. Mas a racionalidade traz também em seu seio uma possibilidade de erro e de ilusão quando se perverte, como acabamos de indicar, em racionalização. A racionalização se crê racional porque constitui um sistema lógico perfeito, fundamentado na dedução ou na indução, mas fundamenta-se em bases mutiladas ou falsas e nega-se à contestação de argumentos e à verificação empírica. A racionalização é fechada, a racionalidade é aberta. A racionalização nutre-se nas mesmas fontes que a racionalidade, mas constitui uma das fontes mais poderosas de erros e ilusões. Dessa maneira, uma doutrina que obedece a um modelo mecanicista e determinista para considerar o mundo não é racional, mas racionalizadora.

A verdadeira racionalidade, aberta por natureza, dialoga com o real que lhe resiste. Opera o ir e vir incessante entre a instância lógica e a instância empírica; é o fruto do debate argumentado das idéias, e não a propriedade de um sistema de idéias. O racionalismo que ignora os seres, a subjetividade, a afetividade e a vida é irracional. A racionalidade deve reconhecer a parte de afeto, de amor e de arrependimento. A verdadeira racionalidade conhece os limites da lógica, do determinismo e do mecanicismo; sabe que a mente humana não poderia ser onisciente, que a realidade comporta mistério. Negocia com a irracionalidade, o obscuro, o irracionalizável. É não só crítica, mas autocrítica. Reconhece- se a verdadeira racionalidade pela capacidade de identificar suas insuficiências"

Edgar Morin. Os sete saberes necessários à educação do futuro. p. 23.

24 de mai de 2016

Sou a dona dos meus passos sobre folhas mortas.

Nem tudo está perdido, nem sinal de pedra no peito. O horóscopo do jornal arriscou "um belo dia". Liguei o rádio na hora certa era a canção que eu queria...

Outono no campus.

19 de mai de 2016

A melhor Mercedita.

Olá.
Terça-feira estava um clima de domingo aqui em casa, porque eu fiz carne assada com batata (o que parece um prato de domingo, pelo menos para mim e minhas colegas) e estava ouvindo música gauchesca, o que é raro. Mas enfim, aí tocou a música Mercedita dos Serranos, mas a versão que eu gosto mesmo é a do Valdomiro Maicá e Fernando Teloeken, que eu ouvia quando era pequena em um cd que minha irmã ganhou num concurso de poesia gauchesca (ou coisa parecida), o qual já perdi há muito tempo. Quando finalmente achei a tal versão da música na internet, fiquei bem feliz e até coloquei no youtube.

Ta aí, a melhor Mercedita.


Que dulce encanto tienen
Tus recuerdos mercedita
Aromada, florecida
Amor mio de una vez

La conocí en el campo
Allá muy lejos una tarde
Donde crecen los trigales
Provincia de Santa Fe

Y así nació nuestro querer
Con ilusión, con mucha fe
Pero no se porque la flor
Se marchitó y muriendo fue

Y amándola con loco amor
Así llegue a comprender
Lo que es querer, lo que es sufrir
Porque le di mi corazón
...

Como um nascido girassol num túmulo.

"Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de se perguntar "quem sou eu?" cairia estatelada e em cheio no chão. É que "quem sou eu?" provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto."

Clarice Lispector. A hora da estrela. p. 15.

Estigma

"Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. Embora não aguente bem um assovio no escuro, e passos. Escuridão? lembro-me de uma namorada: era moça-mulher e que escuridão dentro de seu corpo. Nunca a esqueci: jamais se esquece a pessoa com quem se dormiu. O acontecimento fica tatuado em marca de fogo na carne viva e todos os que percebem o estigma fogem com horror."

Clarice Lispector. A hora da estrela. p. 18.

15 de mai de 2016