17 de abr de 2016

Até mais


Não foi assim que eu sonhei a nossa vida
A despedida seria até logo mais
Mas a vida não permite ensaios
Não há raios antes do trovão
Não olhe para mim como se eu fosse invisível
Como se fosse possível enxergar nessa escuridão
Não olhe pra trás (odeio despedidas)
Diga até mais!
Mesmo se for adeus

Eu, você e mais ninguém
Só nós dois, nada mais a nosso favor
Eu, você e mais ninguém
Um mundo estranho que queimava sonhos
Ao nosso redor (Eu e você)

Não foi assim que eu sonhei a nossa vida
A despedida seria até logo mais
Mas numa guerra ninguém mede conseqüências
A gente erra, depois pede perdão

Eu, você e mais ninguém
Só nós dois, nada mais a nosso favor
Eu, você e mais ninguém
Só nós dois, ninguém mais ao nosso redor
Não podia durar para sempre
Não podia ser diferente
Não poderia ter sido melhor
Eu, você e mais ninguém
Só nós dois e nada mais

4 de abr de 2016

O álbum

"É um álbum desordenado todo ele. Como são as vidas. Essa é, em parte, a diferença entre a vida e a literatura, onde os personagens, por mais irreverentes, têm todas as saídas e as entradas em cena calculadas, fazem todos um sentido na trama. Na vida, não. Rostos somem e outros aparecem, e outros que sumiram reaparecem mais tarde, e outros nunca mais. E poucas vezes esse entra e sai faz algum sentido, porque na vida tudo é caos e descaminho, tudo é encontro e desconcerto. [...] A existência, toda e qualquer, é uma mera alternância entre a vida e a morte, entre crianças e velhos. Uma sucessão de nascimentos e enterros, os enterros para lembrar da finitude, e os nascimentos para garantir que a natureza se refaz. Onde o tempo obedece não à linha reta da aspiração humana, mas ao círculo de uma sabedoria mais antiga."

Eliane Brum em "A vida que ninguém vê". Arquipélago Editorial. Porto Alegre, 2006. p. 158/159.


3 de abr de 2016

Acrobata da dor

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.


Cruz e Souza