12 de nov de 2015

Quem é dono do que acontece dentro de você?

Sua história passa por dentro do seu corpo. Você é dono de seus arranhões e também das contusões conquistadas em subidas em árvores e quedas de escadas. Dono das cicatrizes externas e internas, dos enjoos de nervosismo diante das broncas do pai, do primeiro pedido de namoro, das provas do vestibular.

Você é dono do seu joelho, do seu cotovelo, do seu estômago, da sua hérnia, da sua pedra no rim. É sua a hepatite, é sua a corrente sanguínea, a adrenalina por ter escapado  por pouco de um assalto ou de um acidente.

Você é dono da sua taquicardia na hora de uma entrevista de emprego, você responde pelos quilos a mais depois de passar o fim de semana pulando de um churrasco para uma feijoada. Seus dentes são seus. Sua língua. Seu beijo.

Dentro do seu corpo estão as lágrimas represadas por dores que você esconde  embaixo da pele. Esse tumor desgraçado  é seu. Essa alegria infinita é sua. Você  pensa porque tem um cérebro aí dentro que não é de ninguém mais. Você resolve para onde olhar com seus olhos, o que segurar com suas mãos, com quem compartilhar seu sexo. Você pode vender seu corpo, mas nunca precisou comprá-lo, tem a posse gratuita, legítima, vitalícia e intransferível.

Intransferível.

Através do corpo, você exerce as duas coisas que movem sua vida: o querer e o não querer. Se você deseja, se você resolve, se você pretende, é com o corpo que alcançará seu destino. E você também é dono da sua paralisia, se assim preferir. Tudo o que você sente, tudo o que  você é, vem aí de dentro. O que você quer expelir e o que você quer cuidar. Músculos e sentimentos na mesma caixa-forte.

Você aborta se quiser. Ou gera se quiser. O corpo é seu. O embrião é seu. A história de vida é sua.

Políticos são eleitos para garantir às pessoas (a partir do nascimento, quando se tornam seres sociais) segurança, habitação, transporte, educação, saúde e trabalho. O querer e o não querer de cada um são privados. O que cada mulher traz dentro do próprio corpo é dela,  não do Estado.

Não bastasse o aborto ser proibido, agora querem transformá-lo em crime hediondo. Um político, que é um cidadão qualquer, tem o poder de decidir sobre o corpo da minha filha e o corpo da sua. 

Não importa a vontade delas próprias, suas questões emocionais, psicológicas, íntimas. Não interessa a idade que elas têm, se são religiosas ou ateias, se estão empregadas ou desempregadas, se já são mães de sete ou se jamais quiseram ser mães. Não lhes dão o direito ao medo, nenhum privilégio pela ordem de chegada, adeus ao livre-arbítrio. Engravidaram e, a partir de então, não são mais elas que escolhem.

O querer e o não querer mais pessoais do mundo, administrados por quem não tem absolutamente nada a ver com o assunto.

Martha Medeiros

Um comentário:

Gugu Keller disse...

A única consequência efetiva da criminalização do aborto é a elitização da segurança na sua prática.
GK