4 de set de 2015

Rimas

O homem chegou em casa assustado:
- Está por toda a cidade, é uma sina: todo mundo falando com rima.
- O que? - perguntou a mulher.
- Uma compulsão, um vírus, algo no ar. Não se diz mais nada sem rimar.
- Que absurdo - disse a mulher - um vírus da rima. Ninguém é obrigado a falar o que não quer, seja homem ou mulher. Nenhuma lei... Meu Deus, peguei!
- É na rua, é em casa, é em todo lugar. Não se fala sem rimar.
- Mas é uma barbaridade, ser poeta contra a vontade!
- Concordo, é um abuso. Mas que fazer? Estou confuso.
- Só há um jeito de ser rebelar, resistir e não rimar...
- Como?
- Não falar.
- Mas como nos comunicaremos, se não com as vozes que temos?
- Escrevendo, por que não? Ninguém manda em nossa mão.
- Sei não, será que muda? E se eu escrever como o Neruda?
- Não é hora pra chilique. Pega um papel, e olha a Bic.
O homem experimenta escrever uma frase no papel. Depois recua, horrorizado.
- Estou quase tendo um ataque. Escrevi como o Bilac!
- Será uma coisa generalizada, que atingiu até a empregada?
- Vamos ver se é ou não é. Chame a Nazaré.
A mulher chama a empregada.
- Nazaré, vem aqui um minutinho?
A empregada responde da cozinha:
- Já vou indo, um instantinho. Estou fazendo ensopadinho.
O homem e a mulher se abraçam. É uma epidemia. A rima tomou conta do país. Mas por que? O homem tenta racionalizar.
- Tem que haver explicação. Um motivo, uma razão.
- Será que, de repente, tem a ver com o presidente?
- Você quer dizer o Maravilhoso...
- Que?
- ...Fernando Henrique Cardoso?
- O Cardoso, maravilhoso? Me admira você, que votou no PT!
- Você não está entendendo? Eu não sei o que eu estou dizendo!
- Calma, não se apoquente. Fale outra vez, pausadamente.
O homem faz um esforço, mas não consegue.
- Maravilhoso. Fernando. Henrique. Cardoso.
- Tente outra rima, com urgência crítica. Quem sabe horroroso, por uma questão de coerência política?
- Não consigo, não vê? Tente você.
- O ...
- Sim?
- Esplendoro...
- Não!
- Fernando Henrique Cardoso.
- Já vi, é uma perfídia. Tudo culpa da mídia. Nós não estamos enfeitiçados, estamos é condicionados.
- Há uma rima oficial no país. Ninguém mais controla o que diz.
- Quem variar é exótico, até impatriótico.
- Paciência, relaxemos. Isto passa, esperemos.
- Eu até diria assim: rima melhor quem rima no fim.
Aparece a Nazaré na porta da cozinha.
- A senhora chamou? Aqui estou.
- Nada, nada, Nazaré. O ensopadinho, de que é?
- De vitela cortadinha. Batata, vagem e cebolinha.
- Parece uma beleza. Pode botar na mesa.

Luis Fernando Verissimo

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