31 de ago de 2015

Leandro Karnal - Ser louco é a única possibilidade de ser sadio nesse mundo doente.


Subversiva

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.

Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha

Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.

E promete incendiar o país.

Ferreira Gullar

23 de ago de 2015

Meu epitáfio

Morta... serei árvore,
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes
enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira.
Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo
de vida vegetal.
Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.
Cora Coralina

20 de ago de 2015

Todas as vidas de Cora Coralina.

Todas as Vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado, 
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera
das obscuras!
Cora Coralina

Da janela do meu quarto a liberdade é um bater de asas.

Escrevo em prosa porque os versos não me pertencem, estão livres por aí e não encontro jeito de capturá-los com armadilhas, gaiolas métricas, iscas, riscas e rimas. Queria, mas não consigo. E é justo sobre essa liberdade que hoje escrevo, com vistas à minha janela. A janela do meu quarto é um quadro impressionista, feito de luz e movimento. Nem Monet, nem Manet, que a natureza também é artista. Ela desenha pinceladas que voam no ar, canta a música do amanhecer e escreve versos que pousam nas linhas dos postes de luz. Por outro lado, meu quarto é minha clausura. Escura, segura, íntima clausura. Por viver em uma casa de estudantes, meu quarto é que é meu lar. E já não tenho mais um quarto na casa dos meus pais. Tudo que tenho está aqui. 12m² de lar. Só nele há privacidade para estudar em paz, chorar rios de lágrimas ou dançar freneticamente. Quando estou em casa, passo quase todo tempo aqui. Por vezes, então, depois de passar tanto tempo no quarto sinto-me numa prisão, mas, ao mesmo tempo, essa prisão é o único espaço pessoal que possuo para exercer um certo tipo de liberdade. Quero dizer, coisas simples sabe? Escutar música, decorar do meu jeito, escolher se a luz vai ficar ligada ou desligada, andar pelada, que seja! Pensando bem... Espaço pessoal? Irônico dizer isso com tantas placas de controle patrimonial da universidade pregadas nos móveis... E é por isso que a janela do meu quarto, pela qual vejo tanta natureza, mas também vejo lixo, é especial. Por isso faço essa postagem com fotografias tiradas através de minha janela. E surpreendo-me! São todas de pássaros! Agora compreendo: os pássaros vêm aqui para lembrar-me de sair, de vez em quando, para voar lá fora, e, ao mesmo tempo, para eles próprios poderem contemplar uma pintura, neste caso, humana. Agora está claro:

A janela do meu quarto é um retrato de liberdade.

De fora pra dentro. E de dentro pra fora.









19 de ago de 2015

Guimarães Rosa

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. 
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. 
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo 
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser 
um crocodilo porque amo os grandes rios, 
pois são profundos como a alma de um homem. 
Na superfície são muito vivazes e claros, 
mas nas profundezas são tranquilos e escuros 
como o sofrimento dos homens."

João Guimarães Rosa

18 de ago de 2015

Todos os sonhos de uma vida cabem em 10 linhas mas não no tempo e espaço de minha existência.

Quero terminar a graduação e fazer mestrado e doutorado em Letras e ser professora universitária e pesquisadora e fazer também uma graduação em Artes Visuais e dominar a técnica da caligrafia artística e do desenho realista e da aquarela e da fotografia e saber muito sobre História e Filosofia e Física e Matemática e casar e ter três filhos e adotar mais dois e ainda ter um gato e um cachorro e ser uma boa esposa e uma boa mãe e uma boa profissional e ter uma bela casa no campo e cuidar das vacas e das galinhas e das plantinhas e ser proprietária de um bar e de uma livraria e de uma franquia da Cacau Show e ler muitos livros e pintar quadros e ouvir música e fazer exercícios físicos e comer chocolate e ser uma ótima cozinheira e estar sempre bonita e trabalhar bastante para ter dinheiro para poder viajar pelo mundo e conhecer o Brasil inteiro e o resto da América Latina e os Estados Unidos e Paris e Londres e Berlim e Madri mas não sem antes ser fluente em língua inglesa e francesa e espanhola e todos os outros sonhos que surgirem pela frente.

Frio & chuva & café & Damien Saez.

O frio voltou. E com ele Damien Saez.

 

As músicas do Saez são muito bonitas. Porém, eu não entendo francês e não encontro tradução pronta para as letras, então, utilizo o Google Tradutor, que deixa a desejar. Mas ainda assim é possível captar a essência da letra.

8 de ago de 2015

Hay amores

Música da trilha sonora do filme O Amor nos Tempos de Cólera, baseado no livro do Gabriel García Márquez .

 

Hay amores que se vuelven resistentes a los daños
Como el vino que mejora con los años
Asi crece lo que siento yo por tí


Hay amores que se esperan al invierno y florecen
Y en las noches del otoño reverdecen
Tal como el amor que siento yo por ti


Ay! mi bien, no te olvides del mar
Que en las noches me ha visto llorar
Tantos recuerdos de tí
Ay! mi bien, no te olvides del día
Que separó tu vida
De la pobre vida que me tocó vivir

...

Hay Amores - Shakira