9 de ago de 2014

Úrsula

"Lembrando-se destas coisas enquanto aprontavam o baú de José Arcádio, Úrsula se perguntava se não era preferível se deitar logo de uma vez na sepultara, e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro pra suportar tantas penas e mortificações; e perguntando ia atiçando a sua própria perturbação e sentia desejos irreprimíveis de se soltar e não ter papas na língua como um forasteiro e de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes desejados e tantas vezes adiados, para cortar a resignação pela raiz e cagar de uma vez para tudo e tirar do coração os infinitos palavrões que tivera que engolir durante um século inteiro de conformismo.
— Porra! — gritou.
Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.
— Onde está? — perguntou alarmada.
— O quê? 
— O animal! — esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs o dedo no coração.
— Aqui — disse."

Trecho de Cem Anos de Solidão. Gabriel García Márquez. Página 242.

Nenhum comentário: