23 de ago de 2014

A dança

Olá. O poema abaixo é de autoria da minha irmã, Franciele Bach, e o desenho foi feito por mim. Este trabalho será exposto no Sarau Psyqué, da Semana Acadêmica de Psicologia da Unijuí, que acontece de 25 a 29 de agosto de 2014.


12 de ago de 2014

Calão

vi meu passado de
costas no
canto da
cantina
com um
copo de
café.
— que merda! pensei.
constrangida,
corri. logo
cansei. no
corredor
conheci um
cara, o presente
que disse — ergue a
cabeça e manda ele tomá no
cú. ofereceu um
cigarro.


Fumamos
juntos.


foda-
c.

9 de ago de 2014

Úrsula

"Lembrando-se destas coisas enquanto aprontavam o baú de José Arcádio, Úrsula se perguntava se não era preferível se deitar logo de uma vez na sepultara, e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro pra suportar tantas penas e mortificações; e perguntando ia atiçando a sua própria perturbação e sentia desejos irreprimíveis de se soltar e não ter papas na língua como um forasteiro e de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes desejados e tantas vezes adiados, para cortar a resignação pela raiz e cagar de uma vez para tudo e tirar do coração os infinitos palavrões que tivera que engolir durante um século inteiro de conformismo.
— Porra! — gritou.
Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.
— Onde está? — perguntou alarmada.
— O quê? 
— O animal! — esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs o dedo no coração.
— Aqui — disse."

Trecho de Cem Anos de Solidão. Gabriel García Márquez. Página 242.

1 de ago de 2014

"O irreparável do meu passado - esse é que é o cadáver!"

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.

11.05.1928

Na noite terrível. Poema de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa.