28 de fev de 2014

Janela sobre uma mulher.

A outra chave não gira na porta da rua.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma maçã meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro.
Penso que deveria fazer a barba. Penso que deveria me vestir.
Penso que deveria.
Uma água suja chove dentro de mim.

Eduardo Galeano. As Palavras Andantes. 4ª edição. Página 249.

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