21 de fev de 2013

Ninguém escreve ao coronel.


- Estava com o padre Ângelo. Fui pedir-lhe um empréstimo em troca dos anéis de casamento.
- E ele respondeu o que?
- Que é pecado negociar com as coisas sagradas.

Continuou falando de dentro do mosquiteiro. "Há dois dias tentei vender o relógio", disse. "A ninguém interessa, porque estão vendendo a prazo uns relógios modernos com números luminosos. Pode-se ver as horas no escuro."
O coronel comprovou que quarenta anos de vida comum, de fome comum, de sofrimentos comuns, não lhe bastaram para conhecer a esposa. Sentiu que também no amor alguma coisa tinha envelhecido.

- Também não querem o quadro - continuou. - Quase todo mundo tem um igual. Até nos turcos estive vendo.

O coronel ficou amargo.

- De modo que agora todo mundo sabe que estamos morrendo de fome.
- Estou cansada - disse a mulher. - Os homens não veem os problemas da casa. Várias vezes pus pedras para ferver, a fim de que os vizinhos não soubessem que levamos muitos dias sem por panela no fogo.

O coronel ficou ofendido.

- É uma verdadeira humilhação.

A mulher saiu do mosquiteiro e foi até a rede. "Estou disposta a acabar com os melindres e as contemplações nesta casa."
Sua voz começou a obscurecer-se de cólera. "Estou me afogando em resignação e dignidade."
O coronel não moveu um músculo.

- Vinte anos esperando os passarinhos de cores que lhe prometeram depois de cada eleição e de tudo isso nos resta um filho morto.

O coronel estava acostumado a esse tipo de recriminação.

- Cumprimos com o nosso dever - disse.
- E eles cumpriram com ganhar mil pesos por mês no senado durante vinte anos - replicou a mulher. - Aí está nosso compadre Sabas, com a casa de dois andares e que não dá para guardar todo dinheiro, um homem que chegou na cidade com uma cobra enrolada no pescoço.
- Mas está morrendo de diabete - disse o coronel.
- E você está morrendo de fome - disse a mulher. - Para que se convença de que a dignidade não se come.

[Trecho do livro Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel García Marquez. Editora Sabiá, 1968. Páginas 63 e 64.]

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