28 de fev de 2013

Poema Natimorto [não sei escrever, mas escrevo.]

Quando os dias se tornam meses,
e as noites parecem não ter fim;
Quando acordo, não ao canto das aves,
mas ao som da cólera ultrapassando as paredes;
Quando os espelhos da alma revelam minha feiura,
e a solidão não encontra mais escoadouro nas multidões:
Eu quero.

Quero ser o livro que Bukowski não escreveu.
O quadro que Da Vinci não pintou.
A música que John Lennon não tocou.

Quero ser o elemento que Marie Curie não descobriu.
A teoria refutada de Ptolomeu.
A carta que Rilke não recebeu.

Quero ser  a orelha de Van Gogh.
A perna amputada da Frida Kahlo.
A cabeça de Ana Bolena nas mãos de Henrique VIII.

Quero ser o coração envenenado.
A lobotomia do cérebro.
O bebê natimorto.
Da criança, o aborto.

Quero não ser.

[Quero morrer.]

23 de fev de 2013

Leminski-se!

Olá humanos! Recentemente li Caprichos e Relaxos, do Paulo Leminski, e fotografei alguns dos poemas que gostei. Postarei eles em partes, pois são vários. É isso. Leminski-se! :)





21 de fev de 2013

Ninguém escreve ao coronel.


- Estava com o padre Ângelo. Fui pedir-lhe um empréstimo em troca dos anéis de casamento.
- E ele respondeu o que?
- Que é pecado negociar com as coisas sagradas.

Continuou falando de dentro do mosquiteiro. "Há dois dias tentei vender o relógio", disse. "A ninguém interessa, porque estão vendendo a prazo uns relógios modernos com números luminosos. Pode-se ver as horas no escuro."
O coronel comprovou que quarenta anos de vida comum, de fome comum, de sofrimentos comuns, não lhe bastaram para conhecer a esposa. Sentiu que também no amor alguma coisa tinha envelhecido.

- Também não querem o quadro - continuou. - Quase todo mundo tem um igual. Até nos turcos estive vendo.

O coronel ficou amargo.

- De modo que agora todo mundo sabe que estamos morrendo de fome.
- Estou cansada - disse a mulher. - Os homens não veem os problemas da casa. Várias vezes pus pedras para ferver, a fim de que os vizinhos não soubessem que levamos muitos dias sem por panela no fogo.

O coronel ficou ofendido.

- É uma verdadeira humilhação.

A mulher saiu do mosquiteiro e foi até a rede. "Estou disposta a acabar com os melindres e as contemplações nesta casa."
Sua voz começou a obscurecer-se de cólera. "Estou me afogando em resignação e dignidade."
O coronel não moveu um músculo.

- Vinte anos esperando os passarinhos de cores que lhe prometeram depois de cada eleição e de tudo isso nos resta um filho morto.

O coronel estava acostumado a esse tipo de recriminação.

- Cumprimos com o nosso dever - disse.
- E eles cumpriram com ganhar mil pesos por mês no senado durante vinte anos - replicou a mulher. - Aí está nosso compadre Sabas, com a casa de dois andares e que não dá para guardar todo dinheiro, um homem que chegou na cidade com uma cobra enrolada no pescoço.
- Mas está morrendo de diabete - disse o coronel.
- E você está morrendo de fome - disse a mulher. - Para que se convença de que a dignidade não se come.

[Trecho do livro Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel García Marquez. Editora Sabiá, 1968. Páginas 63 e 64.]

10 de fev de 2013

A chuva que irriga os centros do poder imperialista afoga os vastos subúrbios do sistema.

"A história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já foi dito, a história do desenvolvimento  do capitalismo mundial. Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória dos outros. Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir a prosperidade alheia: os impérios e seus beleguins nativos. Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno. (...) A chuva que irriga os centros do poder imperialista afoga os vastos subúrbios do sistema. Do mesmo modo, e simetricamente, o bem-estar de nossas classes dominantes - dominantes para dentro, dominadas de fora - é a maldição de nossas multidões, condenadas a uma vida de bestas de carga."

Eduardo Galeano. As Veias Abertas da América Latina. Ed. L&PM, 2010. Página 19.

9 de fev de 2013

As Aventuras de Juliet

Olá bípedes. Esta tarde eu assisti ao filme A Família Addams (1991), excelente, por sinal. Gosto muito da personagem Wednesday, a filha do casal Addams. Ela foi minha inspiração para fazer este desenho. Eu pensei em diversos motivos para minha personagem Juliet ter arrancado a cabeça de alguém, haha, e como eu gostei de várias das frases, talvez comece uma série: As Aventuras de Juliet. Neste desenho usei lápis-de-cor, aquarela e nanquim.

"Não é você, sou eu." Foi o que ele disse... Juliet resolveu o problema.

Caso alguém se interesse por olhar A Família Addams, recomendo o site O Melhor da Telona:

O que há.

O que há em mim é sobretudo cansaço,
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

8 de fev de 2013

Desenho: Mulher Tatuada

Olá seres humanos! Eu salvei um milhão de fotos de mulheres tatuadas no meu computador, e acho que é  isso que vou desenhar nos próximos dez mil anos (hipérbole é o meu forte, não?). Dá bastante trabalho, mas o resultado fica lindo! Pretendo fazer de vários jeitos: com grafite, aquarela, nanquim, lápis-de-cor... Esse foi o primeiro, espero que gostem tanto quanto eu. Abraço!




Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…
(Vinícius de Moraes)

6 de fev de 2013

4 de fev de 2013

Liberte-se!

¡Hola hermanos y hermanas! How are you? Je vais bien. Essa semana colei na parede do meu quarto (com a ajuda da Tuisi) a palavra liberte-se, feita com recortes de revistas. Apenas isso, um grande LIBERTE-SE logo acima da porta. Já na parede preta escrevi parte da letra de Imagine, do John Lennon. Eso es todo. Kisses. Au revoir!